A imprensa escrita e os jornais televisivos deram bastante destaque à aprovação em uma comissão da Câmara dos Deputados do projeto que, em tese, acaba com o nepotismo. Ledo engano, isso nunca vai acabar, o máximo que se pode conseguir é minimizar o nepotismo direto, aquele em que o "chefe" abriga diretamente em sua bolha de poder os competentes parentes.
Competentes porque esta é a explicação unânime que todos dão para a contratação de parentes, o problema é que da mesma forma que é difícil acreditar que todos sejam competentes, também, por outro lado, é impossível provar que todos são incompetentes.
Talvez falte coragem para que se assuma a verdade, quem sabe ficaria até mais bonito dizer que está contratando a mulher, o filho, o cunhado, etc... porque quer ajudá-lo, oferecer-lhe um emprego, de fato.
Vejamos bem, os políticos são a expressão da média da população brasileira, ou seja, o brasileiro, na média, é um defensor do nepotismo. Pratica sem saber do que se trata.
Por exemplo, um senhor, pai de família, honradíssimo, fica sabendo que na empresa em que trabalha abriu uma vaga para recepcionista e ele, por qualquer razão, é muito íntimo da pessoa responsável pela contratação, então, ele se dirige para a referida pessoa e pede para dar uma oportunidade para a filha dele. Nesse ato, todos enxergamos uma atitude magnânima, não há nada de errado em pedir um emprego para a filha, entretanto, falando de forma nua e crua, quantas outras recepcionistas melhor preparadas e possivelmente com mais necessidade do emprego foram preteridas em razão de não ter havido um processo de seleção?
A sociedade brasileira é praticante contumaz do nepotismo privado, sempre queremos levar alguma vantagem quando temos que tratar com alguma entidade que do outro lado do balcão tenhamos um parente, seja para cortar a fila, seja para pegar o pão mais fresquinho, o camarão maior, enfim, são fartos os exemplos, e não ficamos nenhum pouco ruborizado com isso, pelo contrário, até fazemos questão de contar vantagem do feito.
A questão do nepotismo público é grave não pelo nepotismo em si, mas pela constatação do desperdício que são estes cargos, porque, sejam os indicados parentes ou não, está cabalmente demonstrada a inutilidade dos mesmos. Essa inutilidade é comprovada, paradoxalmente, justamente pelo nepotismo, porque o deputado emprega a mulher dele como chefe de gabinete, mas ninguém nunca a viu por lá. O filho é dono de outro cargo, mas nunca foi à Brasília.
Então, o que se precisa avaliar, com imparcialidade, é a real necessidade de tantos cargos, tantos assessores, se essa profusão exponencial de cargos de confiança tem alguma serventia e cortar na carne, no bolso, seja onde for.
No fundo no fundo, se um cargo é realmente necessário, como um chefe de gabinete, se este cargo precisa ser ocupado por alguém de confiança, até acho justo que devido o grau de vulnerabilidade da função, seja possível indicar um parente, porque talvez seja essa pessoa a única em que ele possa confiar de forma a não envolvê-lo em interesses escusos, entretanto, o trabalho deveria ficar evidentemente comprovado.
A questão está em separar o joio do trigo, como se poderia fazer para identificar os casos de nepotismo onde o beneficiado não trabalha de fato e os casos onde o empregado exerce com regularidade seu trabalho? É quase uma missão impossível, então, talvez nesse caso, a bem da defesa do erário, que se jogue a água suja e o bebê, fazer o quê?
14 Abril 2005
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1 comentários:
Excelente abordagem. Tema sempre atual. Espero que os contribuintes fiquem atentos ao que acontecerá agora...
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